sexta-feira, 3 de julho de 2015

O Pé de Cabra em Marrakech



 O Pé de Cabra em Marrakech

Dário Borim Jr.

Dizem que a maior ponte do mundo é a que liga Fall River ao arquipélago português dos Açores, a tal de Ponte Braga. Moro nas redondezas e por isso entendo a brincadeira. São tantos os portugueses na costa sul de Massachusetts que essa ponte afetiva com a terra da infância ou da ascendência familiar é mesmo fácil de se imaginar.
Bem, pelos Açores passei rapidinho na rota que me trouxe a Casablanca, a mais rica cidade marroquina, também às margens do Atlântico, como Fall River e a ilha Terceira, onde troquei de aeronave e pude vislumbrar um pedaço do mar a um ponto muito distante de qualquer continente. A sensação desde que cheguei ao norte da África é a de que o mundo não passa mesmo de uma kitchenette, nas palavras de minha amiga Elizah Rodrigues. Ainda no aeroporto de Boston tive a primeira experiência das muitas coisas que nos unem, isto é, um certo gosto pela desordem, ou uma dose de desprezo pela ordem, como queiram.
O embarque daquele voo Boston-Terceira foi, digamos, um cômico caos! As pessoas se aglomeravam sem esperar o seu devido momento de embarque. Fila era uma passageira ausente. Em seu lugar, berros de brincadeira ou de frustração. Até mesma a agente da aerolínea SATA, dos Acores, ria-se do comportamento geral dos passegeiros. Disse-me assim: "ninguém sabe ler o número do assento no cartão de embarque".
Ao chegar a Lisboa, minha segunda troca de aviões, tive que lidar com o inconveniente cancelamento de meu voo para Marrocos. Recebi uma notificação da vendedora da minha passagem na noite anterior ao meu voo. Bem tarde, sim, mas a agente da aerolínea portuguesa de meu próximo voo, a TAP, retrucou: "Sentimos muito, mas avisamos a agência de viagens americana três semanas atrás". Sem outro voo para Casablanca no mesmo dia, tive que pernoitar em Lisboa. Ainda bem que o Tejo é tão lindo e os peixes, como diz uma canção do grupo Deolinda, não param de sorrir. Deixei a chateação de lado e curti a noite lisboeta de uma nova perspectiva, aquela de uma região moderna da cidade, onde nunca estivera, bem perto da impressionante estação de metrô Oriente.
Em Casablanca, um abraço apertado e emotivo de meu filho Ian me recebeu! Logo depois das nossas primeiras conversas, passou-me uma advertência: "cuidado ao embarcar no trem". As pessoas que aguardam não tem paciência nem educação para deixar os que chegam sairem do comboio antes dos novos viajantes embarcarem. A consequência é um perigoso caos. Dessa vez, nenhum acidente parece ter ocorrido, e seguimos felizes rumo ao centro de Casablanca, uma espécie de São Paulo de um país que tem a bela Rabat como sua "Brasília" política e burocrática.
Logo ao desembarcarmos do trem, recebo nova advertência: "cuidado, porque os motoristas geralmente não respeitam nem os sinais, nem os pedestres". É claro que esse comportamento ao volante não nos é estranho, a mim que morei 15 anos em Belo Horizonte, quando lá havia muito menos respeito no trânsito do que há hoje, ou ao meu filho, quem no ano passado se adaptou bem ao trânsito mais caótico que já conheci na vida, o da cidade do Cairo, a poerenta capital egípcia.
Em poucas horas os sabores da comida marroquina e o charme da arquitetura colonial francesa de Casablanca me fariam esquecer a desordem do trânsito. Primeiro, Ian me convidou para um ensopado com carne de camelo. Delicioso! Depois me mostrou os prédios brancos do centro colonial. A seguir fomos a um pub bem europeu, o Bar du Titan, onde se tocavam belas canções de Edith Piaf. Uma cervejinha marroquina, uma Flag bem gelada, desceu bem, mas logo Ian descobriu on-line um concerto de rock marroquino na beira da praia, numa casa de shows alternativos chamada Brock.
A banda Hoba Hoba Spirit fez um sucesso tremendo naquela noite. Lotada de quase 20 homens para cada mulher, Ian e eu nos sentimos em casa. Os presentes dançavam e cantavam juntos numa harmonia e alegria que poucas vezes presenciei em eventos musicais realizados no anonimato das grandes cidades. A simpatia dos músicos era tanta que varias vezes os vocalistas aceitaram filmar, do palco onde se apresentavam, a dança e o canto do público que os assistia, através dos smart phones que os entusiasmados fãs lhes passavam.
Algumas novidades "étnicas" eu teria que perceber, afinal estava (e ainda estou) em um país muçulmano ao norte da África. Por exemplo, num ambiente roqueiro como aquele, não vi ninguém beijar ninguém na boca. Muito menos qualquer "atrevimento" maior. Ian – agora assentado aqui do lado – me diz que uns beijinhos na boca bem rápidos e discretos são tolerados. Disse que deu uns desses lá mesmo. Os vigias fazem vista grossa, talvez. Mas "malhar" ou "ficar", nem pensar.
Beijinhos no rosto como forma de cumprimento rolam entre pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Como no Egito, ali vi muitos homens de braços dados com outros homens, sem qualquer indício de que fossem gays. Mulheres com mulheres, também. Bela e pura liberdade de expressão de carinho, acho eu.
A noite traria surpresa muito maior para mim. E também para meu filho. Meio tarde da noite, talvez pelas duas da manhã, apanhamos um táxi . O motorist, logo que saímos, perguntou em árabe marroquino se havíamos bebido. Ian respondeu em tom neutro mas em palavras que provavelmente soaram ríspidas para o motorista muçulmano: "sim, mas isso não é da sua conta". Erro estratégico de quem é sincero. Aos berros, o homem começou a pregar. Dizia que depois de certa hora era ilegal transportar bêbados, mulheres grávidas e não sei mais o quê.
Ian disse que desconhecia tal lei que queríamos descer do taxi. O marroquino não parou o carro, mesmo quando Ian abriu a porta e lhe entregou algum dinheiro. O motorista mudou de tom quando soube que éramos brasileiros. Começou a falar de futebol, e os nomes de Neymar, Roberto Carlos, Pelé e Ronaldinho ajudaram a suavizar o clima.
Mas a tensão voltou a subir quando chegamos ao destino e o taxista cobrou quase o dobro do que era de se esperar. Ian não deixou passar. Contestou a conta. O marroquino se enfureceu novamente, até que com raiva saiu do carro e disse que não cobraria nada de nós. Ian mesmo assim deixou moedas no banco do carro, que, Segundo me disse, provavelmente cobririam o valor do taxímetro, nunca ligado pelo esquentado marroquino.
Os vários países desse mundo afora têm de fato muito em comum, mas basta estar vivo para se vivenciar o inusitado aqui e ali. E se pudermos viajar, muito maior será a chance de encontrarmos o que parece absurdo entre humanos fanáticos, ou simplesmente contraditórios, como um sujeito a pedir esmolas e ao mesmo tempo falar ao celular.
Até mesmo os animais podem nos chocar. Extremamente disciplinadas, por exemplo, quinze cabras fazem um espetáculo ao ar livre entre as cidades de Essaouira e Marrakech. Ficam horas e horas trepadas numa árvore, comendo castanhas e quase sorrindo para os turistas que, ao vê-las da rodovia, descem dos carros para apreciar de perto aquela imagem surreal.
Dizem que a maior ponte do mundo é a que liga Fall River ao arquipélago português dos Açores, a tal de Ponte Braga. Moro nas redondezas e por isso entendo a brincadeira. São tantos os portugueses na costa sul de Massachusetts que essa ponte afetiva com a terra da infância ou da ascendência familiar é mesmo fácil de se imaginar.
Bem, pelos Açores passei rapidinho na rota que me trouxe a Casablanca, a mais rica cidade marroquina, também às margens do Atlântico, como Fall River e a ilha Terceira, onde troquei de aeronave e pude vislumbrar um pedaço do mar a um ponto muito distante de qualquer continente. A sensação desde que cheguei ao norte da África é a de que o mundo não passa mesmo de uma kitchenette, nas palavras de minha amiga Elizah Rodrigues. Ainda no aeroporto de Boston tive a primeira experiência das muitas coisas que nos unem, isto é, um certo gosto pela desordem, ou uma dose de desprezo pela ordem, como queiram.
O embarque daquele voo Boston-Terceira foi, digamos, um cômico caos! As pessoas se aglomeravam sem esperar o seu devido momento de embarque. Fila era uma passageira ausente. Em seu lugar, berros de brincadeira ou de frustração. Até mesma a agente da aerolínea SATA, dos Acores, ria-se do comportamento geral dos passegeiros. Disse-me assim: "ninguém sabe ler o número do assento no cartão de embarque".
Ao chegar a Lisboa, minha segunda troca de aviões, tive que lidar com o inconveniente cancelamento de meu voo para Marrocos. Recebi uma notificação da vendedora da minha passagem na noite anterior ao meu voo. Bem tarde, sim, mas a agente da aerolínea portuguesa de meu próximo voo, a TAP, retrucou: "Sentimos muito, mas avisamos a agência de viagens americana três semanas atrás". Sem outro voo para Casablanca no mesmo dia, tive que pernoitar em Lisboa. Ainda bem que o Tejo é tão lindo e os peixes, como diz uma canção do grupo Deolinda, não param de sorrir. Deixei a chateação de lado e curti a noite lisboeta de uma nova perspectiva, aquela de uma região moderna da cidade, onde nunca estivera, bem perto da impressionante estação de metrô Oriente.
Em Casablanca, um abraço apertado e emotivo de meu filho Ian me recebeu! Logo depois das nossas primeiras conversas, passou-me uma advertência: "cuidado ao embarcar no trem". As pessoas que aguardam não tem paciência nem educação para deixar os que chegam sairem do comboio antes dos novos viajantes embarcarem. A consequência é um perigoso caos. Dessa vez, nenhum acidente parece ter ocorrido, e seguimos felizes rumo ao centro de Casablanca, uma espécie de São Paulo de um país que tem a bela Rabat como sua "Brasília" política e burocrática.
Logo ao desembarcarmos do trem, recebo nova advertência: "cuidado, porque os motoristas geralmente não respeitam nem os sinais, nem os pedestres". É claro que esse comportamento ao volante não nos é estranho, a mim que morei 15 anos em Belo Horizonte, quando lá havia muito menos respeito no trânsito do que há hoje, ou ao meu filho, quem no ano passado se adaptou bem ao trânsito mais caótico que já conheci na vida, o da cidade do Cairo, a poerenta capital egípcia.
Em poucas horas os sabores da comida marroquina e o charme da arquitetura colonial francesa de Casablanca me fariam esquecer a desordem do trânsito. Primeiro, Ian me convidou para um ensopado com carne de camelo. Delicioso! Depois me mostrou os prédios brancos do centro colonial. A seguir fomos a um pub bem europeu, o Bar du Titan, onde se tocavam belas canções de Edith Piaf. Uma cervejinha marroquina, uma Flag bem gelada, desceu bem, mas logo Ian descobriu on-line um concerto de rock marroquino na beira da praia, numa casa de shows alternativos chamada Brock.
A banda Hoba Hoba Spirit fez um sucesso tremendo naquela noite. Lotada de quase 20 homens para cada mulher, Ian e eu nos sentimos em casa. Os presentes dançavam e cantavam juntos numa harmonia e alegria que poucas vezes presenciei em eventos musicais realizados no anonimato das grandes cidades. A simpatia dos músicos era tanta que varias vezes os vocalistas aceitaram filmar, do palco onde se apresentavam, a dança e o canto do público que os assistia, através dos smart phones que os entusiasmados fãs lhes passavam.
Algumas novidades "étnicas" eu teria que perceber, afinal estava (e ainda estou) em um país muçulmano ao norte da África. Por exemplo, num ambiente roqueiro como aquele, não vi ninguém beijar ninguém na boca. Muito menos qualquer "atrevimento" maior. Ian – agora assentado aqui do lado – me diz que uns beijinhos na boca bem rápidos e discretos são tolerados. Disse que deu uns desses lá mesmo. Os vigias fazem vista grossa, talvez. Mas "malhar" ou "ficar", nem pensar.
Beijinhos no rosto como forma de cumprimento rolam entre pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Como no Egito, ali vi muitos homens de braços dados com outros homens, sem qualquer indício de que fossem gays. Mulheres com mulheres, também. Bela e pura liberdade de expressão de carinho, acho eu.
A noite traria surpresa muito maior para mim. E também para meu filho. Meio tarde da noite, talvez pelas duas da manhã, apanhamos um táxi . O motorist, logo que saímos, perguntou em árabe marroquino se havíamos bebido. Ian respondeu em tom neutro mas em palavras que provavelmente soaram ríspidas para o motorista muçulmano: "sim, mas isso não é da sua conta". Erro estratégico de quem é sincero. Aos berros, o homem começou a pregar. Dizia que depois de certa hora era ilegal transportar bêbados, mulheres grávidas e não sei mais o quê.
Ian disse que desconhecia tal lei que queríamos descer do taxi. O marroquino não parou o carro, mesmo quando Ian abriu a porta e lhe entregou algum dinheiro. O motorista mudou de tom quando soube que éramos brasileiros. Começou a falar de futebol, e os nomes de Neymar, Roberto Carlos, Pelé e Ronaldinho ajudaram a suavizar o clima.
Mas a tensão voltou a subir quando chegamos ao destino e o taxista cobrou quase o dobro do que era de se esperar. Ian não deixou passar. Contestou a conta. O marroquino se enfureceu novamente, até que com raiva saiu do carro e disse que não cobraria nada de nós. Ian mesmo assim deixou moedas no banco do carro, que, Segundo me disse, provavelmente cobririam o valor do taxímetro, nunca ligado pelo esquentado marroquino.
Os vários países desse mundo afora têm de fato muito em comum, mas basta estar vivo para se vivenciar o inusitado aqui e ali. E se pudermos viajar, muito maior será a chance de encontrarmos o que parece absurdo entre humanos fanáticos, ou simplesmente contraditórios, como um sujeito a pedir esmolas e ao mesmo tempo falar ao celular.

Até mesmo os animais podem nos chocar. Extremamente disciplinadas, por exemplo, quinze cabras fazem um espetáculo ao ar livre entre as cidades de Essaouira e Marrakech. Ficam horas e horas trepadas numa árvore, comendo castanhas e quase sorrindo para os turistas que, ao vê-las da rodovia, descem dos carros para apreciar de perto aquela imagem surreal.



sábado, 7 de março de 2015

Entre a Pera e a Maçã


Entre a Pera e a Maçã

Dário Borim Jr.

Em versos de uma divertida e astuta canção de 1984, “Língua”, o eu lírico de Caetano Veloso diz que “a poesia está para a prosa/ Assim como o amor está para a amizade/ E quem há de negar que esta lhe é superior?” A poesia tem mesmo muito em comum com o amor romântico. Nem sempre, é claro, mas tantas vezes a poesia faz-se expressão figurativa, conotativa, e ambígua dos sentimentos em forma de desejos, sonhos, ilusões, ciúmes e paixões. Ela brota do “eu” do escritor e o relaciona com o mundo externo, onde vive, principalmente, a pessoa a quem ama. A ficção em prosa, por outro lado, tende a ser menos simbólica, mais denotativa, e menos ambígua do que a poesia. É mais voltada para a retratação das ações de várias personagens. A prosa brota da necessidade de se contar uma história num mundo onde várias pessoas agem segundo uma multiplicidade de interesses e imperativos, entre os pragmáticos e os emocionais.
O amor romântico geralmente existe por apenas um ser de cada vez, e a poesia brota na voz de um só eu lírico a expor suas próprias emoções e reflexões. A amizade, por outro lado, é o que nos une a várias pessoas queridas, da mesma forma que a prosa (muitas vezes sem mesmo um único narrador a viver no mesmo mundo dos personagens) perfila e dá voz a várias personagens através de diálogos.
Mas há uma coisa em comum entre o amor romântico e a amizade. A compreensão e a experiência de ambos são diferentes de cultura para cultura pelo mundo afora e vêm-se modificando ao longo dos milênios. O amor romântico, especialmente o do tipo amor-paixão, por exemplo, não foi praticado por muita gente antes da era do amor cortês, o da poesia trovadoresca da Idade Média.
Outro dia, o Ian, filho atualmente morando no Marrocos, dizia que a amizade lá e em outros países árabes é quase como que um contrato social. Há muita lealdade e muita expectativa entre amigos -- do mesmo modo, entre amigas, por outro. Estive no Egito e pude constatar que muitos homens andam pelas ruas de braços dados com outros homens, e mulheres passeiam de mãos dadas com outras mulheres. Entretanto, naquela cultura não se pode externar o amor romântico em público. Não se pode dar as mãos e nem se beijar no rosto do sexo oposto, nem mesmo entre pessoas casadas, ou entre pais e filhos adultos.
As diferenças também podem ser individuais. Ninguém tem um círculo de amizades igual ao de outra pessoa, muito menos os mesmos sentimentos pelas mesmas pessoas. Sei, porém, que valorizo intensamente minhas relações com vários amigos e amigas, pessoas que carrego no lado esquerdo do peito há muito ou há pouco tempo, sem que essa marca do tempo determine a intensidade daquelas afeições.
Na minha mais recente viagem ao Brasil vivi momentos preciosos na companhia de novos e de velhos amigos. Aliás, essa é outra característica deles em conjunto: podem ser 5, 10, 20, ou até mesmo 30 anos mais velhos ou mais novos do que eu eu. Lembro-me de Carlos Prado Campos, o Carlitos do Cine Íris. Nossa diferença de idade era de pelo menos 30 anos, mas eu o considerava um amigo. Jogávamos xadrez, tomávamos cerveja, falávamos de literatura e abríamos os corações. Aqui nos Estados Unidos, um de meus melhores amigos é Rick Hogan, um professor de filosofia aposentado, quinze anos mais velho que eu.
Então, de passagem por Belo Horizonte, dois meses atrás, fui convidado pelo meu queridíssimo amigo Geraldo Faraci para curtir um fim de semana na sua casa de campo, localizada no charmoso condomínio Retiro do Chalé, perto de Belo Horizonte. Para lá iria também outro amigo do peito, João Batista Vaz Xavier. Nós três já vimos curtindo nossa amizade há nada menos que 35 anos! Também foram convidados para o almoço de sábado naquele recanto edênico, entre as belas montanhas de Minas, o meu mano, o Tatau, e sua esposa, Jac, a quem conheço e estimo como irmã faz bem mais que 30 anos!
Para elevar ainda mais o astral da ocasião – o reencontro de velhos amigos – tive a ideia de convidar uma pessoa que pudesse levar para a festa o dom que mais aprecio, desde que me entendo por gente: a música. Eu já tinha ouvido a jovem Marina Bueno tocar violão e cantar uma vez, alguns anos atrás, numa festa de Natal na casa de D. Walderez Mignacca. Achei fenomenal que uma adolescente conhecesse tantas canções de múltiplas gerações e pudesse interpretar tão bem e tão despretensiosamente diante de dezenas de amigos e parentes. Filha de Lígia e Vinícius Bueno, um amigo dos tempos do Juvenato também apaixonado por música, a jovem Marina encantou a todos naquela tarde em Paraguaçu.
Um dos elementos que sustentam as amizades ao longo dos anos é o gosto pelas mesmas coisas, e ali, no Retiro do Chalé, a música era um dos mais fortes elos. Na espera do almoço, sob o comando e sob o delicioso atraso do grande mestre-cuca Batista, o menu musical incluía canções de Tom Jobim, Jorge Benjor, Rita Lee, Raul Seixas, Tim Maia, Cazuza e muito mais. Com sua voz afinada, Marina parecia não se importar com os desafinados ao redor, cujo entusiasmo subia mais um pouco a cada golo da verde (caipirinha) ou da amarela (cerveja). Ao longo de algumas horas de cantoria, estava claro que todos viam ali se formando novos elos do coração. Era óbvio que a química entre os velhos e novos amigos fazia coro do que há de mais agradável na vida: a paz e a alegria entre as pessoas que se apreciam.
Na cadência do samba ou do rock’n’roll, ouviu-se uma verdade tácita – mas extravasada – no brilho dos olhos de cada um dos presentes. Não tenho dúvida: ao lado do amor, a amizade se sustenta no topo das experiências humanas. Na casa de Geraldo e Sônia Imanishi, Marina também foi capaz de ajudar esse casal a reviver momentos que jamais deixarão de habitar o âmago dos seus seres. Os dois compartilharam com a nova amiga as partituras das canções que sua filha Yumi mais tocava e cantava.
Apesar de breve, Yumi viveu uma intensa e fascinante vida de viagens, esportes e, principalmente, música, que tocava muito bem ao violão e cantava em português, espanhol, inglês ou japonês. Ela faleceu tragicamente em Ilha Grande quatro anos atrás, quase à mesma idade que Marina tem hoje. A magia de ver Marina percorrer, comentar e interpretar as cifras de Yumi não teve par. Seu talento, sensibilidade e carinho fizeram com que pais e amigos presentes sentissem que Yumi ali estava também. E quem poderia dizer que ela não estava?
As analogias podem ser verdadeiras, mas jamais esqueci uma advertência que ouvi de Ronald Souza, o professor luso-americano que me orientou num dos dois mestrados que fiz na Universidade de Minnesota: “cuidado, as analogias podem ser perigosas e enganosas”. Gosto e concordo com o que dizem os dois primeiros dos versos citados acima. Já sobre o terceiro, tenho dúvidas. Como posso afirmar que a pera é “superior” ou “inferior” à maçã? Nem uma coisa nem outra, são como amizade e o amor, que têm mais uma característica em comum: operam milagres nos corações daqueles que amam e/ou cultivam as formas mais sinceras e profundas de amizade. Essas, para mim, constituem-se no prazer maior de viver.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Olhar de Quem Voltou




Dário Borim Jr.

Em certa fase da vida até pensei em ser psicólogo, mas mesmo antes disso (e, claro, antes de deixar disso), eu já lia alguma coisa ou outra dos grandes nomes desse maravilhoso campo do saber. O suíço Carl Jung, discípulo favorito de Sigmund Freud, ficou famoso com sua teoria de arquétipos. Esse termo vem de duas palavras gregas: archein (original, antigo) e typos (modelo, tipo). Para Jung, o ser humano age dentro do esquema de adaptação constante da sua consciência a esses arquétipos, facetas de um inconsciente coletivo que a humanidade traz desde milhares de anos atrás, desde seu passado mais remoto.
Bem, chega de ciência. O fato é que para Jung um desses arquétipos é nossa ligação muito forte com a terra onde nascemos. Para mim e outras milhares de pessoas, essa terra é Paraguaçu, para onde volto sempre que posso, apesar de morar no exterior há 25 anos, o que significa quase a metade de minha vida. Não sou o único paraguaçuense expatriado, é claro, e gostaria de saber o que pensam os demais, mas sei que pelo menos três, seres também expatriados há mais de 20 anos, já expressaram algo parecido ao que hoje tenho a dizer. São Maristela Dunn, que mora  e sempre roleta de bicicleta na Califórnia (portanto, a pouco mais de 5 mil km de mim, que moro em Massachusetts), Rosa Mignacca (uma talentosa artista morando em Londres há décadas), e Tânia Marques (uma bela representante romana da Terra do Marolo na Terra do Macarrão). O que acontece é que sempre que voltamos a Paraguaçu, ficamos bobos ao ver tanta beleza natural na nossa região, o que muita gente nem percebe porque a vê todos os dias, mas sem realmente conseguir ver como a vê quem volta à terra, quem não mais está acostumado às tais belezas.
É claro que pode parecer exagero esse entusiasmo de paraguaçuense do estrangeiro. Pode até parecer piada. Aliás, pode virar piada. Num de meus passeios pela nossa região, não faltou quem fizesse pilhéria do deslumbramento dos ilustres visitantes de além-mar ali dentro do carro, isto é, o queixo caído dos expatriados temporariamente retornados. A gozação veio de um nativo, Adélio Mignacca Filho, irmão de Rosa e de Juliano Leite Mignacca, um “paraguaçuense ausente” residindo em São Paulo há muitos anos.
“Ah, Darinho, você com essa câmera que não para de clicar, e essa minha irmã que não para de ‘gemer’ aqui do lado… que esse verde ali é lindo demais, que aquela árvore lá é simplesmente fascinante. Qual é? Daqui a pouco vocês vão começar a tirar fotos de estrume de vaca e postar no FaceBook. Tô cansado de ver isso gente. Bobeira!”
No carro, não vi o semblante do Rodrigo Morais Leite, primo desses irmãos com quem eu revisitava o distrito de Guaipava depois de pelo menos 45 anos, mas imagino que ele, mesmo não sendo um expatriado, é um urbanóide, como Juliano, que também achava aquilo tudo maravilhoso.
O visual que juntos curtimos naquele passeio foi de fato fantástico. Quem duvidar é só procurar meus albunzinhos de fotografias no FaceBook. No fundo, o próprio Adelinho se contagiou pelo entusiasmo de quem se encantava com as curvas harmoniosas de tantas colinas que se desdobravam em enorme área visível a cada subida da estrada de terra batida, linda, soberana, por onde passávamos. Por ali nos víamos embasbacados diante da variedade de tons verdes do pasto, do café, do milho, da banana, do bambu e do feijão, entre muitos outros. Variedade dos tons de azul, branco e cinza do céu, que ameaçava fazer chover. Variedade do marrom-pastel das casas de tijolos expostos, dos cupins, ou das fornalhas de carvão vegetal.
Na verdade, minha mais recente viagem a Paraguaçu nessa última passagem de ano me trouxe o maior prazer que já tive até hoje em termos de redescoberta das belezas de nossa região -- da própria cidade e de suas vizinhanças, como o distrito do Pontalete. É uma vergonha, mas acredito que eu não tivesse ido, uma vez sequer, ali ao outro lado da represa de Furnas, desde que ela fora criada. Mas em duas semanas para o Pontalete eu me dirigi nada menos que três vezes – e que posso dizer? O caminho, que tem na sua rota o excepcional Restaurante do Diógenes, com sua vasta vista de 250 graus da região, é simplesmente imperdível, incomparável e inesquecível.
De fato, o trajeto agora é um tanto exótico, quase surreal, por conta da seca que não apenas fez ressurgir duas pontes que ficaram submersas ao longo de meio século, como também as tornou úteis e necessárias para se passar sobre os rios Sapucaí e Verde, os leitos que formaram a desaparecida represa. Muitos foram meus passeios a pé pela cidade e arredores, pelas suas estradas de terra vermelha ou marrom, pela paisagem cartão postal deslumbrante para nenhum europeu, hispano-americano, norte-americano, asiático ou africano menosprezar. Para mim, fica, então, a lição: não deixemos de desfrutar do local onde vivemos, ou nascemos! E viva o arquétipo jungiano, porque de amor e consciência do que é de fato belo, não deixemos de ver nossa terra na sua maior aura de luz, cor e formosura.



sábado, 13 de dezembro de 2014

Camaleão



Biblioteca Claire T. Carney, Univ. de Massachusetts Dartmouth

Camaleão

Dário Borim Jr.

“Você consegue se safar da lei, apesar de cometer tantos assassinatos”, diz-me a Rosa Mignacca, uma querida amiga de infância que, em Londres, terra de Sherlock Homes, não passa de uma viciada em filmes policiais. Estou exagerando, sim, mas ela também. O negócio é o seguinte: aquilo é simplesmente uma expressão inglesa muito comum. Traduzi a frase meio que literalmente, por desconhecer uma boa versão em português para a acusação: “Darinho, you get away with murder!” Qual seria o meu crime, vocês devem estar matutando. Eu diria, não sei, são tantos. Brincadeira à parte, minha vítima da vez é sempre a mesma: a literatura! Como assim? E por quê? Bem, vamos dizer, é um crime de paixão e traição. Aparentemente, dizem, amo muito mais a música do que a literatura, a despeito do fato de que tenho um Ph.D. em Literatura Hispana e Luso-Brasileira, e de que ganho a vida como estudante de pós-graduação ou professor universitário nessa área do conhecimento há quase 30 anos.

Valéria Souza, minha ex-aluna desta região onde moro nos Estados Unidos, vira e mexe não resiste e me pergunta: o que você tem mais, livros ou CDs? Honestamente, não sei a resposta. Essa pergunta eu também faria a meu cunhado, Dr. José Codo, que possui milhares de discos e livros em casa. Só que ele, apesar de ser um médico famoso, não suja as mãos de sangue. Sujo eu, dizem as más línguas, ao ganhar a vida com uma coisa e amar e me ocupar da outra.

Recentemente recebi a visita de Jill Gallegos, uma queridíssima amiga do Wyoming. Sou bastante intuitivo e percebi que ela sentia uma certa tentação. Parecia que ela também queria me fazer aquela mesma pergunta. No espaço em que me ajeito para trabalhar, entre as duas longas paredes do meu escritório (que mais parece um estreito minicorredor das artes literárias e musicais), tenho um bom número de livros e outro um pouco menor de CDs – ou seria o contrário? Seja lá o que for, isso não quer dizer que o mesmo ocorra em minha casa, que aqui haja mais livros que CDs – mas, talvez…  

Não importa: o que vale mesmo é a verdade, apesar dessas acusações e especulações – essa… conspiração da esquerda. E qual é a verdade? É que para mim a música está bem mais presente no dia a dia do que a literatura. Outra verdade é que quando iniciei minha carreira como professor universitário, em Minnesota, dei um curso que mesclava as duas coisas. Era sobre a música de Caetano Veloso e a literatura de seu tempo. Então, desde o começo amo, convivo e mesclo essas duas formas de arte. De qual mais gosto varia com o tempo, quem sabe, mas, honestamente, já faz bem tempo que vence a música, com a qual me ocupo, me realizo, e, modestamente, me sobressaio como pessoa e como profissional.

Nessas últimas semanas, por exemplo, me deliciei ao fazer palestras em algumas universidades onde meu assunto foi sempre… música. A satisfação foi enorme ao conseguir que a entusiasta plateia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso M.I.T., cantasse “O Samba da Minha Terra” – aquela composição sobre o samba da minha terra que deixa a gente mole, e tal – junto comigo e com Dorival Caymmi, também presente à tela, junto à letra da canção. Imaginem que na chique Universidade de Harvard fui falar sobre música… brega! Sim, brega, meus caros! E que noite divertida foi aquela, por conta das revelações pessoais e sexuais dos entrevistados pela carioca Ana Reaper, a diretora de um documentário imperdível, Vou Rifar Meu Coração.

Na sequência de muitos eventos musicais ou acadêmico-musicais, estou fechando a semana com chave de ouro. Há poucos dias assisti a um concerto de música asiática. A ilha de Java está muito bem representada na Universidade de Massachusetts Dartmouth por um grupo de uns vinte aprendizes. Elise Lindo e Casey Snook, duas de minhas melhores alunas de Português, fazem parte da banda que semana passada nos trouxe aquela música serena, quase nos levando a um nirvana entre paredes de concreto. 

Anteontem, após produzir e apresentar uma edição especial do Brazilliance, meu programa de rádio e internet, em que toquei três horas de Tom Jobim, fui prestigiar os dois curtas de Don Burton, um amigo cineasta, e lá recebi um convite irrecusável: ir assistir a um concerto de rock progressivo de Adrian Belew, um dos maiores nomes do gênero, o principal guitarrista do lendário grupo King Crimson. Após compartilhar tantas frases melódicas simplesmente maravilhosas de Jobim com meus ouvintes, eu agora ouvia e dançava assentado aos fantásticos sons de um virtuoso da música pop. Aos cinquenta e cinco anos de idade eu curtia um dos shows de rock mais fascinantes e divertidos de toda a minha vida. Acompanhado de Julie Slick, uma atenta e competente mulher de óculos escuros no baixo, e de Tobias Ralph, um puro e virtuoso capeta na bateria, Belew foi o roqueiro cantor-instrumentista mais alegre, brincalhão, criativo e simpático que já vi até hoje.

Ontem, a noite não foi nada menos impressionante e memorável. Fui a um concerto de final de ano, com duas sessões de dois corais diferentes: um fez-se acompanhar pelos solos de um pianista e um violinista; o outro se uniu a uma pequena banda de música africana. No mesmo evento, curtimos uma sessão de canções de Natal sob uma linguagem de jazz. Para concluir, subiu ao palco uma enorme banda de alunos do Departamento de Música que apresentou, entre outras composições, uma bela – e, para mim, brasileiro, também divertidíssima – versão de “Noite Feliz” (“Silent Night” em inglês), ao ritmo de samba, um clássico apropriadamente redenominado “Silent Samba.” Até cuíca e agogô estavam a roncar nas mãos dos gringos.

O evento não parou por ali. Ao som de mais música ao vivo, por parte de um coral de alunos e ex-alunos, serviu-se um elegante jantar (tinha até lagostas) aos presentes, que se deslocaram do teatro para a nossa linda biblioteca central. Agora embalados pelo vinho, outras pessoas me questionaram sobre minha verdadeira vocação. Uma delas, Adrian Tióo decano da Faculdade de Artes  Performáticas e Visuais, me perguntou, brincando, se eu não estaria disposto a oferecer cursos no Departamento de Música. Ainda mais gratificantes foram duas observações da própria reitora da Universidade, Divina Grossman. Ela não apenas me solicitou novas cópias dos CDs do Brazilliance, pois os que eu lhe dera meses atrás estavam cansados de tocar. Fã de minhas imagens postadas no FaceBook, ela também me perguntou quando seria minha primeira exposição fotográfica no campus.

Bem, naquele momento a minha chefe acariciou o meu ego, claro, mas aumentou minhas dúvidas sobre quem sou eu. Entrou na complicada equação de minha identidade e vocação uma terceira incógnita: sou de fato um fotógrafo? Não tem problema não. Aliás, tem mais complicação. Além de radialista, sou cronista, uai. E quem sabe ainda não descubro mais outras deliciosas máscaras – “getting away with murder” e vivendo feliz como camaleão?

sábado, 1 de novembro de 2014

Saravá, Meu Pai!



Saravá, Meu Pai!

Dário Borim Jr.


Saravá, Meu Pai!
 

Dário Borim Jr.

Então já se faz dois meses desde que escrevi minha crônica mais recente? Nossa! Nem acredito! Era setembro e minha vida começava um novo ciclo. O ano escolar nos Estados Unidos se inicia em agosto ou setembro. A vida de professor é assim mesmo, demarcada por esses ciclos semestrais, quando a vida parece que renasce, mas logo volta a um esquema meio parecido aos de outros semestres. Quando penso nesse intervalo, sem escrever uma única crônica, procuro explicações dos dois lados da equação: por que me afastei e por que me afastaram do que tanto gosto?
Do lado de cá, a ideia é a de que o mesmo impulso que me leva a escrever, também me leva a fotografar diariamente e a fazer radio há 13 anos! Por isso não senti tanta falta da escrita, já que aquele impulso para criar e compartilhar andou ocupado, pela imagem e pelo som, ao invés da palavra escrita. Do outro lado da equação, vejo as marcas de que minha vida andou agitada, com compromissos acadêmicos e seus privilégios, razões muito fortes para eu entrar para esse mundo universitário e nele sobreviver desde 1987, quando comecei a pós-graduação na UFMG.
Nessas últimas oito semanas foram muitos convites para festas, sessões de jazz e viagens. Pois nesse intervalo fui a um festival de cultura escocesa em New Hampshire, dei uma palestra na famosa universidade de tecnologia de ponta, o MIT, perto de Boston, e curti uma maravilhosa viagem a uma região muito distante daqui, entre as montanhas Rochosas, do Wyoming e Colorado, e as áreas desertas do Novo México. Lá no Velho Oeste, a mais de 4.000 km de distância, passei um ano e meio de minha juventude bem no início dos anos 80. Agora foi simplesmente fantástico rever aquela paisagem e reencontrar amigos que permanecem vivos e fortes em meu coração há mais de 32 anos.
A oportunidade de ir ao Velho Oeste na semana passada veio por conta de um  congresso da APSA (Associação Americana de Estudos Lusófonos) na Universidade do Novo México, em Albuquerque. Lá apresentei uma crônica-ensaio sobre a crônica em si mesma, texto que recentemente saiu publicado num livro que editei com dois colegas, Célia Bianconi Charles Perrone (Crônicas Brasileiras: A Reader). Que honra: meu texto fecha o volume e ali me põe ao lado dos gigantes do gênero: Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e vários outros. 
       Esses grandes congressos acadêmicos internacionais são eventos que também marcam os limites de outros ciclos na vida do professor acadêmico. Quando vamos a um encontro desses, quase sempre encontramos alguns colegas de quem muito gostamos, mas quem não vemos ao longo de um ciclo de quatro, seis, oito, ou às vezes até mesmo 10 anos. Há ocasiões em que esse hiato é de se perder no tempo da memória ocupada com tantas outras datas e prazos a vencer. Foi mais que isso, para mim, quando vi mas não reconheci meu primeiro professor de pós-graduação, o mineiro Wander Miranda, com quem fiz na UFMG um seminário sobre a escrita autobiográfica de Graciliano Ramos, em 1987. Na segunda oportunidade que tive de vê-lo em Albuquerque, a ficha caiu. Reconheci-o. Que prazer, então!
Outros queridos colegas de velhos carnavais tornaram muito especial o evento naquela charmosa cidade rodeada de desertos, além do que pudemos, também, fazer novos amigos, entre pessoas súper interessantes e gentis, entre jovens e não tão jovens ligados à mesma vocação de promover nossa língua e nossas culturas lusofalantes.
Aliás, confesso que, para mim, trabalhar com jovens é um dos típicos privilégios da vida dos docentes desse mundo afora. Outro privilégio é poder se divertir com tais colegas de profissão mais jovens do que nós. Carregam no peito muita energia e entusiasmo contagiante. Foi isso que fiz na minha última noite no Novo México. Com um grupo de aproximadamente 12 pessoas, entre professores e alunos de pós-graduação, fui a um restaurante de sushi, jantar seguido de mirabolante noitada hispana em clube da cidade. A banda de 12 membros, chamada Nosotros, mandava brasa em belíssimas salsas e merengues, rumba e tcha-tcha-tcha. Dancei, dancei pra valer, horas a fio, seguidas de uma refeição num estranho restaurante que mescla cozinhas mexicana e grega. Lá chegamos perto das duas e meia da manhã. E rimos. E cantamos. E até dançamos nesse restaurante totalmente vazio.  Só nós ali, e os cozinheiros rindo daquilo tudo!
Que delicia! Fez-sso, confesso: adorei escrever mais essa! Enquanto isso, celebro: saravá meu pai!mei! lembrar das homéricas noitadas em Mariana, num café-teatro chamado Sagarana, fundado por uma queridíssima professora de Francês, a saudosa Magdalena Gastelois. Nem se fala de como era bom aquilo! Cheguei a passar noites incríveis, de muita conversa e dança, na companhia de colegas e alunos da História, Educação, e Letras, até três horas da manhã, mesmo que tivesse que dar aulas às sete e meia. Algumas daquelas aulas de um professor beirando os 40 anos de idade, sobre a fantástica poesia de um Shakespeare ou de um Yeats, foram algumas das melhores que deu em toda a sua vida.
Esse período sem escrever agora me fez lembrar do famoso escritor argentino Jorge Luis Borges. Velho, cego, numa cadeira de rodas, ele chegou a uma conclusão desconcertante: devia ter escrito menos e vivido mais. Quero isso não. Tenho pique e tesão demais pela vida. Se der, um dia desses ainda escrevo mais sobre isso. Enquanto pai!

sábado, 23 de agosto de 2014

Arte e Missão: A Fotografia de Maier e Salgado



Arte e Missão: A Fotografia de Maier e Salgado

Dário Borim Jr.

Que atributo melhor nos destaca dentro do mundo animal? Será que somos mesmo os ditos “animais racionais” do  universo? Diógenes, aquele filósofo grego, estava certo? Não passamos de frangos depenados? O raciocínio, os sentimentos, e muitas outras características fazem parte tanto da vida dos cães, elefantes e pererecas, quanto da existência de lutadores de boxe, políticos e garis.
Um dos atributos que melhor nos separam dos outros tipos de animais acredito que seja a nossa relação com a arte: a capacidade para criar, evocar, representar e/ou transformar o mundo ou novos mundos que brotam de nossa imaginação, nossa necessidade de ir muito além das experiências banais, mas necessárias, como escovar os dentes e pentear os cabelos (quando ainda os temos), nos vestir ou despir pelo menos 730 vezes por ano, comer todo santo dia e quase todo santo dia ver que boa parte daquela comida gostosa estava apenas de passagem. Virou massa abominável. Invadiu os rios e oceanos.
Algum tempo atrás os tais animais racionais passaram a considerar a fotografia como forma de arte. Mais que justo, só que ela pode ser mais que isso! Recentemente mergulhei nas fascinantes histórias de dois fotógrafos cuja existência não seria a mesma se por acaso não tivessem descoberto e alimentado suas paixões e obsessões (desculpem a redundância) pela sua arte. Não há espaço aqui para ir fundo no que vejo de complexo e absolutamente fantástico na mente e no roteiro de vida de cada um. Tentarei apenas esboçar alguns contrastes e semelhanças.
Sebastião Salgado nasceu na pequena cidade de Aimorés, Minas Gerais, em 8 de fevereiro de 1944. Aos setenta anos de idade, é um dos fotógrafos vivos mais famosos de todo o mundo. Vivian Maier veio ao mundo no mesmo dia, mês e ano que minha mãe: 1o. de fevereiro de 1926. Era natural de Nova Iorque, filha de uma imigrante francesa nascida num pequenino vilarejo situado num vale dos Alpes. Maier jamais conheceu a fama em vida. Muito pelo contrário. Basicamente ninguém viu suas fotos. Nem ela! Logo após sua morte, em 21 de abril de 2009, seu enorme legado foi descoberto. Hoje ela é uma das mais celebradas fotógrafas de todos os tempos.
A vasta maioria da produção de Maier e Salgado é em branco e preto. Também há semelhanças temáticas. Embora retratem de tudo que existe na Terra, dedicam mais tempo a fotografar seres humanos, bem mais do que animais, plantas, e paisagens urbanas ou rurais. Em particular, compõem imagens de pessoas que vivem às margens do conforto material e da sensação de segurança de um lar. 
Ao trabalhar por mais de 40 anos como babá para famílias de classe media alta entre Chicago e Nova Iorque, Vivian Maier levava as crianças para passear nas periferias empobrecidas daquelas cidades. Extremamente discreta e solitária, era estranhamente viciada em coletar jornais e revistas nos seus aposentos, que sempre mantinha trancados. Sozinha ou acompanhada nas suas andanças, Maier capturava, com sua Rolleiflex, as ações e emoções de anônimos sem-tetos, desempregados, bêbados, loucos, trabalhadores braçais em inóspitas condições, crianças chorando, casais brigando, a imundice e a pobreza gritando calada que só quem gosta de pobreza é intelectual de esquerda.
Uma obscura missão levava Maier a fotografar freneticamente esse mundo, mesmo que ela mesma não pudesse vê-lo além do visor de sua câmera. Maier não revelou quase nada dos mais de 150 mil retratos que tirou. Talvez sua obsessão com o fotografar sugasse quase todo o seu salário na compra de novos rolos. Talvez não sobrasse dinheiro para o processamento dos seus milhares de cartuchos selados, um dia descobertos num depósito de aluguel. Em função do extraordinário talento e atual reconhecimento da obra de Vivian Maier, qualquer de seus retratos revelados em vida, do tamanho de um cartão postal, ou menor, não vale menos que 4 mil reais.
O enredo do outro protagonista desta crônica também nos surpreende. Há mais de 40 anos residindo em Paris, Sebastião Salgado foi criado por fazendeiros abastados do Vale do Rio Doce. Não seguiu o destino que talvez lhe fosse mais fácil: cuidar e expandir as posses de seus pais. Sensível aos disparates econômicos e políticos do Brasil dos anos 60, rebelou-se. Enquanto estudava economia na USP, foi membro de um grupo de resistência à ditadura, a Juventude Universitária Católica. Perseguido pelos militares, exilou-se em Paris, onde continuou a trabalhar para seu grupo e cursou doutorado na prestigiada Sorbonne.
Em 1970, aos 26 anos, Salgado comprou uma Pentax Spotmatic II, para ajudar Lélia, sua esposa, em seus trabalhos de estudante de arquitetura. Não entendiam nada de fotografia. Foi paixão instantânea. Sebastião e Lélia logo tecem um novo sonho: largar tudo, comprar uma velha Kombi, montar um laboratório fotográfico nela mesma, e sair trabalhando por toda a África. Antes de terminar sua tese, ele obteve um excelente emprego junto à Organização Mundial do Café. Transferiu-se para Londres, comprou um esplêndido carro, alugou um belo apartamento ao lado do Hyde Park, e passou a viajar de graça por todo o mundo. Não podia esperar algo melhor de um emprego, mas isso veio. Realizou gratificantes projetos comunitários de enorme desenvolvimento econômico e social em Ruanda, Burundi, Congo, Uganda e Quênia.
Salgado descobriu que de fato queria fazer muito mais pela humanidade, e que queria muito mais da vida, do que conforto e prestígio próprios. Seu trabalho independente como foto-jornalista já lhe dava confiança e lhe aguçava a imaginação. Resultado: largou tudo para trás para se tornar fotógrafo do mundo. Vendeu o que possuía e investiu em equipamento fotográfico de peso. O sucesso veio rápido, ao receber inúmeros prêmios e ser muito bem pago por agências de publicidade, organizações variadas, além de grandes revistas e jornais europeus. Já retratou mais de 120 países. Seus projetos são longos e sempre de muita relevância social. A cada um deles dedica entre seis e oito anos! Vai e vive com as pessoas que fotografa nos rincões mais remotos do planeta. Mundo afora, já fotografou, por exemplo, os trabalhadores que atuam em tarefas em extinção, por conta dos avanços da mecanização e da tecnologia (Trabalhadores); os milhões pessoas em fuga massiva ou morrendo de fome (Êxodos); e os habitantes desse planeta ainda a viver como se fazia a milênios atrás, como os nômades de Mali (Gênesis, atualmente em exposição em Belo Horizonte).
Para nós, os interessados nesses fenomenais artistas, não falta informação. Recentemente foi lançado um excelente documentário, Finding Vivian Maier, certamente disponível no Brasil em breve. Também recente é o maravilhoso livro de Sebastião Salgado, Da minha terra à Terra. A custo bem baixo, foi lançado em brochura pela ed. Paralela. Tudo isso é, para mim, uma profunda fonte de inspiração sobre como ver, viver, fotografar, ensinar e aprender.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nem Deus Brasileiro, nem Papa Argentino



 
Nem Deus Brasileiro, nem Papa Argentino
 Dário Borim Jr. 
 dborim@umassd.edu


Que memorável experiência foi a de assistir, in loco, a uma partida da Copa no novo Mineirão! Por si só, o contato com gente de muitos países a caminhar para o estádio, sob um belo e energizante sol belo-horizontino, foi uma oportunidade inesquecível. Lá dentro, a sensação era a de eu estar dentro de uma televisão transmitindo um match de uma liga europeia. No estádio mais tradicional das Minas Gerais, os astros de Costa Rica e Inglaterra jogavam diante de gente bricalhona, mas educada, e coloriam um universo já repleto de tons, sons, e movimentos coletivos, que às vezes acompanhavam as manifestações musicais de pilhéria sobre os ingleses, já desclassificados do torneio, ou sobre qualquer torcedor argentino que aparecesse vestido a caráter no telão. Em geral, a sensação era de júbilo ao ver que o Brasil conseguia, a trancos e barrancos, sediar uma Copa do Mundo. Hoje penso: a história da segunda Copa do Mundo no Brasil não foi, de modo algum, diferente do que eu esperava. Vejamos por quê.
Alguns anos atrás li o original em inglês de um livro que jamais esquecerei, Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globalização (Ed. Zahar). É de um escritor americano, Franklin Foer, editor da famosa e sofisticada revista New Republic. Trata-se de uma obra fascinante, resultado de uma interessantíssima pesquisa sociológica ao longo de dois anos. Há bastante humor: o autor confessa, desde a primeira linha da obra, que sempre foi um perneta e não entende nada de futebol. Cada capítulo é dedicado à maneira como o futebol pode ser um bom meio para se entender aspectos importantes de um dado país.
Ao discutir tal questão em relação ao Irã, por exemplo, Foer aponta o aspecto revolucionário do futebol. Numa cultura onde vigoram normas muito rígidas sobre o que as mulheres podem ou não podem fazer, o esporte é símbolo e faz parte de um movimento revolucionário. Certa vez, centenas de mulheres, até então impedidas de ver partidas de futebol, marcharam rumo a um estádio em Teerã, arrombaram as portas e presenciaram um jogo de classificação de seu país para a Copa do Mundo.
No capítulo dedicado à Espanha, discute-se a particular rivalidade entre as identidades coletivas e as ideologias políticas que orientam os torcedores do Real Madrid e do Barcelona. O intenso e complexo tipo de nacionalismo emergente entre os torcedores catalãs em oposição ao de castelhanos torna essa seção do livro uma das mais ricas e intrigantes. No capítulo sobre o Brasil, revela-se uma longa e frustrante história de corrupção dentro dos clubes brasileiros e da Confederação Brasileira de Futebol.
Em parte, a Copa do Mundo de 2014 confirmou a tese daquele capítulo sobre o Brasil. Pudemos ler e ver casos de suspeitas ou fatos verídicos de superfaturamento de obras realizadas para a Copa. Além desse triste e vergonhoso elemento inegável da história, eu gostaria de mencionar o reflexo de outras características de nosso povo, algumas dos quais me deram imensa alegria e orgulho; outras, pelo contrário.
Em primeiro lugar, aponto a excelente hospitalidade e extrema generosidade com que os estrangeiros foram recebidos no nosso país, fato destacado em várias pesquisas realizadas entre eles. Depois, o genuíno fervor e a contagiosa paixão do brasileiro pelo esporte: lotando os estádios, assistindo, torcendo e discutindo cada partida da Copa como se todos os jogos fossem da seleção brasileira. Ao longo de um mês, familiares e amigos se reuniram dezenas de vezes para comer e beber e dançar e cantar em clima de total harmonia, descontração e bom humor, tudo por conta do seu próprio jeito de ser e dos jogos cheios de gols e improváveis resultados, como a eliminação precoce de quatro gigantes do futebol: Espanha, Inglaterra, Itália e Uruguai.
Outros componentes da mesma história foram as festas e apresentações musicais organizadas nas cidades-sedes. Apesar dos raros excessos e ocasional mau comportamento, como os de alguns argentinos, o clima cordial e alegre nesses locais, como os da praça da Savassi, em Belo Horizonte, já faz parte indelével da história da cidade, a mesma que viu a equipe norte-americana vencer a inglesa na nossa primeira Copa do Mundo, a de 1950.
Ainda outras características marcantes do povo brasileiro em evidência nesta Copa do Mundo foram a tendência ao atraso e a negligência no cumprimento das obrigações, problemas que provavelmente estariam por trás dos tristes acidentes e mortes de operários na construção de alguns estádios, como também na lamentável e embaraçosa queda de um viaduto em Belo Horizonte.
Nossa bela Belo Horizonte também ficou gravada como palco do maior fiasco da história do futebol brasileiro, a notória derrota dos 7 a 1 na semifinal contra a Alemanha. O papel de Neymar naquela equipe me faz pensar na dependência de um salvador, ou na força nefasta da hierarquização da nossa nação, na nossa história de monarquia, por exemplo, onde o Rei atuou como pivô paternalista da sociedade, ou mesmo no nosso ditador “bonzinho,” Getúlio Vargas, o Pai dos Pobres. Vi também o sentimentalismo do nosso povo retratado no choro dos jogadores ao cantar o Hino Nacional. Vi a falta de preparo estratégico e tático da equipe, certamente confiante na sua capacidade de improvisar e achar um jeitinho para lidar com o imprevisto e para enfrentar as adversidades.
Grave adversidade chegou. Neymar machucou-se gravemente. Uma equipe sem esquema tático e viciada na improvisação de um jogador que, segundo o técnico, podia jogar como um coringa no campo, sem eira e nem beira, até começou bem a partida contra os alemães. Porém, ela logo se desmoronou, entrando e pânico após o segundo gol de uma seleção que fizera o oposto a nós, ao se preparar meticulosamente para vencer a Copa.
Bem, reservo para o final desta crônica o melhor da história: o fabuloso senso de humor dos brasileiros! Tiro o chapéu: rimos de nossa ruína, elaboramos centenas de piadas sobre nosso desatino em campo, e a vida ficou um pouquinho mais alegre, ainda, em plena Copa que perdemos, ao vermos os “hermanos” voltarem pra casa sem o Caneco.
Minhas piadas favoritas foram a partir de imagens do Cristo Redentor. Numa delas a estátua sobe aos céus feito um foguete, e ele grita do alto do Corcovado: “Tô caindo fora desse país.” Se, apesar das milhares de rezas, dessa vez Deus mostrou que não é brasileiro, o Papa mostrou que nem ele pôde ajudar os seus “hermanos.” 
Também sou solidário. Além da nossa tragédia em campo, para mim foi deprimente ver Messi receber o taça de Melhor Jogador da Copa sem um sorriso sequer. Ele é bom sujeito, dizem, mas aquilo deve ter-lhe parecido como um Troféu Abacaxi. Ele queria era outra coisa. Nós também. Daqui a quatro anos tem mais. Rezemos mais, mas trabalhemos, a sério e  muito mais, para de novo ganhar a Copa!